terça-feira, 13 de outubro de 2020
Para Toda A Eternidade (& Will My Cat Eat My Eyeballs?) , Caitlin Doughty
Semana passada escutei ao audiobook de Will My Cat Eat My Eyeballs? (que será publicado aqui pela Darkside Books com o título de Verdades do Além-Túmulo), e nessa semana finalizei a leitura de Para Toda A Eternidade, ambos da Caitlin Doughty.
Todos os livros foram traduzidos pela Regiane Winarski.
Eu sempre me considerei uma pessoa extremamente consciente no que diz respeito a morte e à nossa mortalidade. Na minha casa conversamos sobre o assunto tranquilamente, tenho um plano de morte estabelecido, minha família sabe dos meus desejos para quando minha hora chegar (porque sim, ela vai, como a sua também). Mas conhecer o trabalho da Caitlin e a forma natural com a qual ela e outros profissionais lidam com isso me abriu os olhos pra uma série de novas possibilidades.
Para Toda A Eternidade é um livro é sobre diferentes culturas e pessoas, e como são os rituais para os momentos de luto de acordo com a história dos povos desses países que visitamos com a autora. O que pode parecer morbidez nada mais é do que um momento natural, que foi cada vez mais esterilizado e, porque não, desumanizado de acordo com o "avanço" da sociedade, e da transformação do fim da vida em um negócio cada vez menos pessoal e desnecessariamente mais lucrativo.
A Caitlin tem um jeito muito único de contar tanto sobre questões técnicas e científicas quanto pequenas anedotas sobre as próprias viagens, e também os personagens que ela encontrou durante o processo de escrita e pesquisa para o desenvolvimento desse livro. Já acompanhava o canal dela no youtube, mas desde que li o primeiro lançamento dela, o Confissões do Crematório (Darkside Books, 2016), minha admiração apenas aumentou, além do meu conhecimento sobre tantas questões sobre as quais evitamos, mas precisamos falar, tanto para nossa própria aceitação quanto a de nossos entes queridos perante essa inevitabilidade que é a morte e o processo de luto.
Já Will My Cat Eat My Eyeballs? é um livro de respostas a questões feitas por crianças e adolescentes a ela, sobre questões que vão de pedir para ela descrever o cheiro de um corpo em decomposição à questão do título (a resposta é basicamente: se você morrer, seu gato provavelmente não vai ter quem o alimente, então, sim, talvez ele coma seus olhos - mas vai começar pelo nariz e pelos lábios). Esse é o livro que menos gostei dos que a Caitlin escreveu até agora (mas mesmo assim gostei bastante!) mas, basicamente, porque muitas das respostas que ela deu são coisas que já eram do meu conhecimento, sendo pelo próprio já citado canal dela, ou também pelo que ela fala nos outros dois livros. Isso, infelizmente, deixou com que algumas coisas soassem repetidas pra mim, mas a experiência de escutar ao audiobook foi ótima por ser narrado pela própria autora, assim como todos os outros também são.
Ano passado, no lançamento de Para Toda A Eternidade, a Caitlin veio pro Brasil e tive a oportunidade de ouvir sobre todas essas coisas diretamente dela, bem como conversar um tantinho e ter meus livros autografados. Ela é uma das pessoas que mais admiro nesse mundo, e foi uma oportunidade incrível conhecê-la ♥
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* Em outras notícias, estou fazendo um monte de post temáticos pro Halloween lá no meu instagram, e ando bem empolgada com isso. Me segue por lá!
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segunda-feira, 27 de julho de 2020
Carvão Animal, Ana Paula Maia
Carvão Animal (Record, 2011) é o terceiro volume n'A Saga dos Brutos, precedido por duas novelas que estão no livro Entre Rinhas de Cachorros e Porcos Abatidos (Record, 2009). Esse primeiro reli há alguns meses, e reencontrar o texto da Ana Paula nunca deixa de ter a mesma sensação que um chute que nos tira o ar. Como já é esperado de uma série de livros, A Saga dos Brutos nos trás a mesma temática, ainda que trabalhada de formas distintas: homens que têm trabalhos que ninguém quer ter, e no meio disso ver coisas que ninguém quer ver e fazer coisas que ninguém quer fazer.
Assim como o já conhecido e recorrente personagem Edgar Wilson (com quem também acabamos nos encontrando nessa história), em Carvão Animal temos os irmãos Ronivon e Erasmo Wagner. Ronivon é funcionário de um crematório, e Erasmo Wagner é bombeiro. Ambos estão o tempo todo em contato com fogo e com a destruição que ele pode causar, às coisas e às pessoas - ao ponto de torná-las o carvão animal do título. São trabalhos pesados, mas essenciais e necessários, e muitas vezes essas pessoas invisíveis são quem e o que mantêm a ordem e o funcionamento da sociedade. Acho que isso é muito bem explorado especialmente na novela que acompanha Entre Rinhas..., chamada O Trabalho Sujo dos Outros. As situações extremas endurecem esses homens, e eles usam isso também para se anestesiar dos próprios traumas e tragédias pessoais.
Porque, além de tudo, Carvão Animal lida muito com a morte. Mortes naturais, em acidentes, assassinatos, para onde vão esses mortos, e como também os vivos têm suas responsabilidades e afazeres nessa hora. É tudo um grande ciclo, e as coisas belas têm tanto valor quanto as coisas que as pessoas podem considerar feias e desagradáveis. Por um problema de saúde congênito, Erasmo Wagner se coloca em situações de risco que muitos de seus colegas de trabalho não se colocariam, mas com o tempo percebemos que a raiz desse desprendimento é algo muito mais profundo que a falta de sentir dor física. Ronivon aceita um trabalho extremo para ajudar a salvar o crematório em que trabalha, por mais que isso desafie sua sanidade e suas crenças.
É tudo dolorido, cru, bruto, quase cinematográfico, ainda que sucinto em palavras, de uma forma que Ana Paula Maia trabalha com uma maestria que dificilmente encontramos em outras obras e outros autores. Foi mais um livro da autora para consolidar a admiração que tenho pelo trabalho dela, e mais uma leitura excelente em um ano que tenho tido sorte com minhas escolhas.
* Esse livro foi uma das leituras da Pretatona, na categoria Nacional.
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sábado, 6 de julho de 2019
Jane Eyre, Charlotte Brontë
Também há alguns anos, em bons tempos do dólar mais em conta, comprei essa lindísisma edição da Barnes & Noble, honestamente sem me imaginar capaz de ler um livro com esse tamanho e com o distanciamento temporal e linguístico que temos, mas iria ficar tão bonita a lombada na estante. No ano passado resolvi finalmente ler esse livro - não sem antes considerar comprar uma nova edição, nacional. No fim das contas, arrisquei ler o que já tinha. E quão maravilhosa foi minha surpresa de não apenas me ver facilmente imersa na leitura, mas redescobrir um livro cheio de nuances, com uma escrita extremamente cativante, e, principalmente, uma protagonista que, apesar de escrita em uma época tão distante da nossa, é atemporal.
Jane Eyre, que originalmente continha o subtítulo Uma Autobiografia, é um livro escrito por Charlotte Brontë sob pseudônimo Currer Bell, e publicado pela primeira vez em 1847. Mais que um romance de formação, contém em seu enredo críticas sociais pertinentes à época, uma heroína que do início ao fim se mantém fiel às suas convicções, e um romance que subverte muita coisa do gênero escrita à época.
O livro começa na infância de Jane, órfã e sendo criada na casa da esposa de um tio, que também havia morrido. Sofre desde sempre uma série de abusos físicos e psicológicos até que vai para um internato, onde essa situação continua. Mas, diferente de muitas vítimas de abuso, Jane não acredita ser culpada a ponto de receber punições, e tem muita consciência da disparidade entre palavras e ações das pessoas a sua volta. Ela espera ter um momento de redenção de todos os infortúnios de sua vida, e segue moralmente incorrompida apesar de tudo, esperando por essa paz.
Após crescer dentro do internato, inclusive se tornando professora, Jane se cansa de viver ali. Procura e encontra um emprego de governanta em um lugar chamado Thornfield Hall, uma enorme mansão, onde conhece o Mr. Rochester - um homem bem mais velho, que guarda um monte de segredos, e com quem Jane Eyre se envolve. Esse romance tem um turno bem inesperado, mas, pra evitar spoilers, basta dizer que as coisas não saem muito como o planejado e esperado em um romance mais tradicional.
E muita coisa no livro não é dentro do que a gente espera como padrão em um livro dessa época, especialmente um romance. Desde o começo, ela nos deixa claro como nunca achou o Mr. Rochester um homem bonito (ou simpático, ou educado, ou agradável num geral), mas se apaixona mesmo assim. Ele também se vê envolvido, mesmo que Jane jamais passe por uma grande transformação que a faça mais atraente. Pelo contrário, quando declara sua afeição, ela se mantém o que sempre foi e pede a ele que a ame exatamente por isso.
Jane aprende com as dificuldades, ao invés de se deixar corromper por elas. Pratica o perdão sem perder o próprio orgulho e senso de justiça, e também é humilde, recebendo com gratidão honesta qualquer tipo de ajuda em momentos de dificuldade - coisa que não falta para ela nessa história. Também é uma menina, que se torna uma mulher, de opiniões fortes, e que tem uma moral muito definida, moldada de acordo com a crença cristã de que boas ações valem o reino dos céus, e pecadores vão para o inferno. Não existem grandes ensinamentos, apenas uma moral: nossas escolhas, e o que fazemos com elas, determinam nosso destino. E nunca é tarde para seguir seu coração, nem para fazer o bem.
Não consigo deixar de tecer elogios pra esse livro, nem deixar de recomendar pra todo mundo. Foi uma releitura que acho que precisava mesmo fazer, pra redescobrir esse livro, e com isso ele se tornou sem dúvidas um dos meus livros preferidos da vida.
Charlotte Brontë
Barnes & Noble - 2011
507 páginas
Essa minha edição não está disponível no momento - eu, pelo menos, não encontrei em nenhum lugar. Recentemente, a Zahar publicou uma edição comentada e ilustrada em sua coleção de clássicos, e é a edição que ainda estou pensando em comprar em portugês. Se você prefere no original, as edições da Penguin sempre são super confiáveis, ou, ainda, a Amazon tem um ebook disponível de graça no site.
domingo, 11 de março de 2018
Sempre Vivemos no Castelo, Shirley Jackson
Meu nome é Mary Katherine Blackwood. Tenho dezoito anos e moro com a minha irmã Constance. Volta e meia penso que se tivesse sorte teria nascido lobisomem, porque os dois dedos médios das minhas mãos são do mesmo tamanho, mas tenho de me contentar com o que tenho. Não gosto de tomar banho, nem de cachorros nem de barulho. Gosto da minha irmã Constance, e de Richard Plantagenet, e de Amanita phalloides, o cogumelo chapéu-da-morte. Todo o resto da minha família morreu.
Assim começa Sempre Vivemos no Castelo, último livro da escritora americana Shirley Jackson. Publicado originalmente em 1962, três anos antes da morte da autora, muitos consideram essa sua obra prima, e é citado como inspiração para autores como Neil Gaiman e Donna Tartt.
Seis anos antes do início da história, os pais, um irmão e uma tia de Mary Katherine (ou Merricat) foram assassinados durante um jantar, quando alguém colocou arsênico no açúcar da família. Além de Merricat (que estava de castigo e não participou do jantar), só ficaram vivos sua irmã mais velha Constance, que não come açúcar, e o tio das meninas, Julian, que consumiu uma quantidade pequena do açúcar envenenado e sobreviveu com sequelas. Como Constance exibe traços de uma fortíssima fobia social e Julian ficou debilitado, é Merricat quem vai semanalmente até a cidade fazer as comprar para a casa. Através das palavras e atitudes das pessoas que Merricat encontra no caminho, vemos uma hostilização dela e dos membros restantes de sua família, o que os torna cada vez mais reclusos e justifica esse comportamento.
Isso é que posso contar da história sem maiores detalhes, e foi assim que mergulhei nessa leitura - sabendo pouquíssimo sobre esse livro, e creio que foi a melhor forma possível. Ainda mais que os acontecimentos, a forma com a qual a narrativa é construída foi minha coisa preferida. Como é através dos olhos e do fluxo de pensamento de Merricat que acompanhamos a história, ela se revela a maior das narradoras não confiáveis, cheia de humor negro, nos contando apenas o que ela quer que saibamos e no momento em que ela quer cada revelação.
Os pensamentos dela, inclusive, são um detalhe à parte na história. Merricat, além de traços de mania que me fizeram pensar em uma pessoa com transtorno obsessivo-compulsivo (mesmo isso não sendo claramente especificado no livro), tem momentos em que de deixa levar por pensamentos fantasiosos que são uma espécie de mecanismo de defesa - seja pelo isolamento, ou pelo medo do que ainda pode acontecer à sua família. Ela se culpa quando as coisas saem da rotina pelo fato de algum de seus rituais ter sido quebrado. Em muitos momentos tive que voltar páginas ou passagens quando percebia que era o pensamento e imaginação dela, e não a narrativa linear acontecendo.
Além de toda essa característica psicológica da história, me apaixonei pela ambientação, pela casa, e pela atmosfera que o livro conjura. Existe um clima soturno, de obsessão, e a sensação constante de que tem algo errado durante toda a narrativa, mas ainda assim, como estamos vendo tudo pela mente de Merricat, existe um conforto nesse isolamento e nessa rotina.
Sempre Vivemos no Castelo se transformou esse em um dos meus suspenses preferidos, ainda que a revelação da verdade sobre o que aconteceu no jantar não seja, pra mim, o foco principal do livro (e nem um mistério tão grande assim). Leitura incrível e super recomendada. Já quero ler tudo o que a Shirley Jackson já escreveu, e acho uma pena eu ter demorado tanto pra conhecer esse livro e a autora.










